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Tárik de Souza
Quando Guinga recebeu uma demo daquela cantora de cabelo rastafari em Natal (RN), em 2006, imaginou que nada tinha a ver com ele. Mas foi só a potiguar Khrystal Saraiva Santos, de 26 anos, entoar uma de suas músicas para convocá-la a fazer números em seu show (que seria) instrumental. Não satisfeito, voltou a Natal e tocou violão em duas faixas (Baião de Lacan e Influência de Jackson, parcerias com Aldir Blanc) do CD de estréia de Khrystal, Coisa de preto, ode ao coco com tinturas da embolada ao funk.
- Gosto do lado B das músicas, sou da MPB do rock - diz ela.
O disco, uma esmerada produção independente (www.khrys.tal.zip.net) que custou R$ 65 mil, segundo o produtor José Dias, vendeu 1.200 cópias até agora. Lançada no programa de Inezita Barroso, Viola, minha viola, da TV Cultura paulista, Khrystal prepara novo show para São Paulo no fim do mês e é focalizada no terceiro programa da série, Destino Brasil - Música, apresentado por Pedro Luis, no Canal Brasil.
- Não acho que sou coquista, mas queria trabalhar com a atmosfera do coco. Adoro Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Elino Julião, tenho paixão por Cátia de França, a quem não se dá o devido valor. E acho incríveis as quebradas rítmicas do Jacinto Silva - diz.
O repertório escolhido a dedo, sem uma faixa desperdiçada, abarca estas preferências. Do discípulo de Gonzaga, Dominguinhos, no raro coco Sete meninas (com Toinho Alves, do Quinteto Violado) ao fornecedor de Jackson, Rosil Cavalcanti, em Coco do Norte, de 1955. Elino Julião comparece com Forró da Coréia (com Oliveira Batista), crivado de atabaques e guitarras. Da paraibana Cátia de França, Khrystal singra Quem vai quem vem, coco embolado que vira funk, e Lá vem Batista, um rockoco nada rococó, de guitarras roncantes. E de Jacinto Silva são dois quebra-línguas castiços, de tirar o fôlego, Quadra e meia e Coco do M (com Zé do Brejo).
O curto-circuito eletroacústico percorre o disco, a começar da faixa-título, da própria Khrystal com Tertuliano Aires ("Coisa de preto/ todo mundo tem/ esse molejo/ do seu jeito"), um rock de guitarras pesadas, que deságua em coco e samba, com uma citação rapeada de As cidades, de Chico Science. O ancestral coquista potiguar Chico Antonio (1904-1993) comparece na releitura turbinada de Usina. Outros convocados são Lenine (Coco da mãe do mar, com Siba), Chico César (Sem ganzá não é coco) e Zé de Riba (www.sem, com Rolmildo Soares), que abre num discurso rapeado e não dispensa guitarras, nos arranjos bem calibrados de Franklyn Nogvaes.
Casada com o produtor José Dias, com quem tem um filho de 1 ano e 10 meses chamado Jackson Luiz Brasileiro (homenagens a Jackson do Pandeiro, Gonzaga e Tom Jobim), Khrystal ralou sete anos em barzinhos do circuito alternativo após ter saído de casa por divergir do pai, ligado à música tradicional. Surpreende ao citar suas influências:
_ - Minhas cantoras preferidas são Elis Regina e Leny Andrade, apesar de não terem a ver com o disco. Morro por elas. E Egberto Gismonti, gosto demais dauele homem. Meu gosto é muito variado. Pena é o coco, que era para ser lugar-comum do nordestino, ter virado ET para o grande público por causa da política das rádios. |